domingo, 30 de outubro de 2016

O Azul Intenso

Há dias em que as águas se fazem mais azuis, como orgulhosas de si mesmas, de um azul tão profundo que chega a parecer lágrima nas pupilas infantis de Ana.
     O sol ganha mais luz e raios novos para começar a manhã. Há dias que são feitos com carinho e cuidados especiais, porque foram marcados, a longo tempo, no calendário.
     As horas têm, então um significado certo e precioso – uma fisionomia toda própria. Cada uma é a data inadiável, repleta de segredo, que fica fazendo surpresa àtoa. Só não as sente plenas quem está muito inquieto ou descrente da doçura; quem se esqueceu de prender bem os olhos ao azul mais intenso da água ou aos raios muito novos.
     Há dias em que as ruas se fazem mais largas e combinam encontro em todas as esquinas; ou convidam a caminhadas extensas para contar cousas curiosas ou mostrar as árvores onde dormem nomes entrelaçados.
     Esquecem o tédio e a súplica das mágoas. A música chega tão perto que é parte da cadência dos gestos e o canto nasce leve, como um pedaço do tempo. Só não os viu quem não foi tocado pelo azul ou poema que nasce dele.
     Depois, as horas amadurecem e tentam fazer tristeza, ou acordar a sombra e a solidão. Chamam a bruma dos dias opacos e desalentados, convidam o silêncio velho. A saudade debruça-se dolorida sobre as ruas como se as fadas estivessem mortas e os sonhos perdidos.
     Mas, quando a realidade cinge o corpo, com braços de terra e medo, os olhos brilham ainda cheios de cores e música.
       Pois, onde ouve um dia de luz há vestígio de alegria, gérmen de sorriso, fragmento de esperança. Onde passa o sonho fica um raio luminoso desafiando os incrédulos e descrentes. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Energia da Paz

Todos nós buscamos a paz e o equilíbrio, porém sem algum contato significativo com os níveis interiores do Ser não se alcança, ou se conserva a energia da paz. Isto porque o exterior é incontrolável e muda a cada dia, sem que possamos prever os rumos que tomam os acontecimentos gerais de nossas vidas.
            Mas o estado interior, uma vez reconhecido e aperfeiçoado nosso contato com ele, vai sendo conquistado e, pela disciplina, dá-nos força de superação equilibrada para vencermos ou enfrentarmos as mudanças que sempre ocorrem na vida de cada um.
            A expansão do sentido da harmonia, do amor impessoal e do perdão a todos, abre-nos os canais para o contato com níveis mais profundos de nosso ser – os céus dentro de nós. E é aí que mora nossa paz e alegria, nossa força e nosso encontro com a luz que nos foi dada.
            Quando estamos desapegados do passado e confiantes no comando superior para a regência de nosso futuro, podemos viver o presente sem medo ou ansiedade,  na paz,na harmonia e no serviço à evolução coletiva do grupo ao qual pertencemos. Chegamos assim à intuição daquilo que é melhor para nós e para o todo que nos leva ao Pai.
            Feito esse trabalho, a irradiação da energia do bem coletivo se expande e atinge grupos cada vez mais numerosos. Dá-nos também real possibilidade de nos sentir integrados e úteis ao plano cósmico do Criador.
            A luz foi dada a cada um para trabalho de crescimento e expansão das luminosidades sobre a superfície da Terra, e não para ser escondida ou encoberta pelas sombras da ignorância, das trevas dos erros, das distorções e das discórdias, ou dos egoísmos e materialismos limitadores.
            O sentido da paz está sempre ligado à liberdade do Ser e ao amor à humanidade.
            Pela disciplina e limpeza moral e mental, cada um pode tornar-se o canal através do qual passa a pura luz dos elevados níveis de consciência.
            Aquele que irradia sempre o amor fica acima dos planos das vibrações negativas, densas ou agressivas, protegido que está pelo escudo da paz, e se fortalece na ligação com a luz universal. Somente aquilo que melhorarmos em nossa própria vida pode ajudar nosso ambiente a ser melhor. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O SIMBOLISMO DA CRUZ


Entre os vários simbolismos religiosos, a Cruz – que é símbolo em várias épocas e entre vários povos – é um dos sinais simbólicos mais antigos, mais complexos e menos estudado em todos os seus significados.  

        Na cruz estão valores e energias ativas e irradiantes (na vertical) e passivas e atrativas (na horizontal). O fluir e o refluir dos ritmos da vida.

        Quando Jesus diz, por exemplo, “toma tua cruz e segue-me”, muita gente entende apenas parte do simbolismo. Pensa no peso, no sofrimento, nas dificuldades, na cruz dolorosa. Esquece-se de sua energia gloriosa, de sua direção para o alto.

        Na cruz estão também as responsabilidades que preenchem nossas vidas e criam as alegrias do cotidiano, estão valores éticos, energia do fazer crescer, ainda que com um certo esforço. Bem como os estados horizontais passivos, o aquietar-se, o perceber, o receber ou o deixar fluir no tempo certo. Um trabalho complementa o outro.

        Ativo e passivo, dar e receber, cair e levantar-se são conquistas da escola humana, do crescimento individual. São valores que, entendidos, nos levam ao Cristo culminância da subida, ou nos derrubam ao solo, ponto da matéria mais densa, do começo da subida.

        Morte de (ou na) cruz é também desapego do plano material em suas várias manifestações, para uma maior identificação com realidades mais elevadas onde o espírito tudo vivifica e amplia. “Sois o sal da terra e a luz do mundo”, disse Jesus, àqueles que o seguiam.

        No Apocalipse está escrito: “Aquele que é digno de receber o livro e abrir os selos...”, referindo-se ao Cordeiro que foi imolado na cruz para abrir caminho para a humanidade. Caminho de vida, não de morte, pois “já somos filhos de Deus, porém o que seremos ainda não foi manifestado”. Diz São João que “sabemos que por ocasião da manifestação seremos semelhantes a Ele (o Cristo)". “Tenho muitas coisas a vos dizer mas não podeis agora compreender”, disse Jesus. Os olhos jamais viram o que Deus preparou para aqueles que o amam.

        Sabemos portanto apenas de nossos embaraços de agora, mas não sabemos o que está preparado para os que entram na luz de Deus. Não nos é ensinado que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus onipresente? Que somos templos do Espírito?
        Não podemos deixar de crer num futuro luminoso para os que entram em sintonia com o Criador, para os que O invocam, se aquietam e se colocam receptivos à sua graça. 

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Despertar

“Desperta tu que dormes e levanta-te de entre os mortos que o Cristo te iluminará”, diz o profeta Bíblico. Grande parte da humanidade até hoje, ou principalmente hoje, anda voltada não apenas para o que comer e vestir, mas para o que acumular, exibir e manipular de acordo com o que é mais moderno.
         O plano da alma fica então apagado, desativado, improdutivo em suas cargas de forças e bênçãos. Não se pode usar a energia que se desconhece e não se pode conhecer o que não se busca pelo estudo, pelo aquietamento, pela prática de interiorização ou pela prece.
         As energias do Espírito, do Pai, do Filho, e da Mãe Divina, estão à disposição de todos aqueles que vão ao seu encontro. Aqueles que se elevam no plano material pelo amor ao próximo e pela purificação do coração e da mente serão sempre os privilegiados.
         Outrora fomos todos trevas, mas hoje, deveríamos ser luz no Senhor e manifestar os frutos da luz que são a harmonia, a paz, a saúde e o desdobramento, bem como o bom relacionamento com todos, o perdão, a verdade e a justiça.
         As vibrações ou correntes de luz são expressões de amor impessoal que podem surgir e se ampliar na aura daqueles que encontram e trilham o caminho superior iluminado.
         O ser humano é parte integrante do cosmos e nele têm o seu papel individual e intransferível, sua missão de vida. E é na própria consciência pessoal que podem aflorar os marcos do seu roteiro na Terra e a sua responsabilidade como herdeiros do Pai Cósmico, justo e amoroso.
         Precisamos limpar nossa consciência de distorções, da vontade, de limites e preconceitos criados pela mente puramente humana para que flua a presença real que nos anima e se estabeleça o plano do Criador para toda a humanidade. Nesse momento cíclico as forças evolutivas batem à porta com força transformadora e insistente.
         É hora de deixarmos a mente velha, cristalizada, egoísta e ambiciosa, agitada e fraudulenta, para conquistarmos a mente serena, pura e transparente que liberta e ilumina através do amor universal.
         Renascer no Espírito é um trabalho a ser feito cotidianamente por todos, ainda que muitos não se dêem conta da importância dessa expansão de consciência, a ser realizada nos atos práticos da vida diária, para o futuro do Planeta e da humanidade.

domingo, 12 de junho de 2016

Da sombra para a luz

O esforço próprio é a grande mola real do verdadeiro crescimento humano; é nele que está o germe da vitória definitiva. Não creia nunca no sucesso fácil, ou na conquista sem luta. Elas são ilusórias e efêmeras. Não há crescimento, sem trabalho de conquista. Só no plano espiritual da graça é que as Leis são diferentes e, para nós todos, ainda imprevisíveis.
       No plano puramente humano, cada um se constrói (ou se destrói) a partir do que já é. Cada qual se fortalece, se amplia, e luta para isto. Recebe-se sempre na medida justa em que se busca, se trabalha, ou se abre ao esforço interno, para que o plano Superior flua até nós.
       Ninguém pode fazer por nós o que nos compete, para alcançarmos uma amplitude de vida e de conhecimento do que é real em nós. Só no plano material e impermanente, podemos, aparentemente, ganhar cargos, títulos, riquezas sem o devido esforço. Mas tudo isto pode cair repentinamente de nossas mãos tão facilmente como apareceu. Este é o plano da ilusão, o plano transitório das experiências humanas.
       Na vida material a mente oferece mil opções enganosas, mil sugestões e motivos, para não fazermos o correto esforço que culmina na conquista essencial, aquela que ninguém nos pode tomar. Assim nos ensinam todos os que se encontraram, se iluminaram e perceberam o sentido verdadeiro da vida neste Planeta.
       Fora dessa realidade está a angústia, o vazio, a solidão, a frustração, o medo, a fraqueza e o fracasso, a doença e toda outra carência que, nos tempos atuais, é vista em grande escala no mundo moderno que se julga muito civilizado e adiantado.
       É sempre dentro de nós, que construímos as conquistas definitivas que nos retiram do mundo da carência para a vida em plenitude.

domingo, 1 de maio de 2016

A Vitória

Andou depressa, quase correu, chegou cedo sem saber para que.
Olhou desconfiado a sala de aula. Sala vazia, cresce, dá medo. Carteiras sem meninos são frias, agressivas.
Entrou tímido. Não era o primeiro da classe, não era capitão de time, nem o mais levado ou o pior nos estudos.
Olhou desajeitado. Menino oitavo lugar, menino reserva de time, moreno claro, sete e meio de comportamento.
O quadro negro fazia assombração na parede nova.
A professora trouxe a fila de crianças alegres e as arrumou nas carteiras, como uma caixa de bombons.
Professora bonita – bombom de licor – menino queria agradar, menino desapontado não agrada. Queria tirar zero, mas tinha estudado a lição. Queria ganhar dez, mas tropeçou no vestido novo da professora e não disse o fim da análise lógica. Encabulou-se, riram dele.
Menino queria ir embora, mas a casa não era mais bonita do que a escola. Queria ficar de castigo, mas estava quieto ouvindo e olhando a professora. Queria medalha, mas a nota não dava.
Os anos correram logo. Menino não levou bomba, não foi o primeiro da classe, não teve medalha nenhuma.
Menino estudou muito. Ganhou diploma: Matemáticas, Português, desapontam, Química, solidão, Latim, tristeza.
Quando crescesse mais, certamente seria diferente.
A infância deu um pulo. Encurtou rapidamente, achou o homem menino ainda e tudo que devia ser fácil ficou mais complicado, mais 8º lugar, mais reserva de time.
O menino então se lembrou de gritar, espernear, procurar as coisas de qualquer jeito. Leu, indagou, pediu, fez papel feio, tomou vitamina, viajou, pensou difícil. Uma porção de ideias nasceram desencaminhadas, procurando estradas que não eram, dias que não estavam na folhinha, vozes que o vento levara.
Menino grande correu, cansou, chorou, deitou-se para morrer; a morte não o quis. De repente, uma ideia pequenina – cara de reserva – o chamou de novo. Menino grande levantou-se, viu um trilho estreito – coisa à toa – menino crescido indeciso, medroso, querendo ser forte, corajoso, querendo tudo. Escorregou, foi devagar, tropeçou, achou ruim, insistiu ainda. Caminho difícil, mas quis seguir sem saber para onde. Andou tanto que começou a ter o passo firme, desenvolto. Aprendeu a respirar, achou graça nas árvores, nos pássaros, descobriu caminhos novos, assobiou alto.
Sem saber como, menino foi aprendendo a ver, a ouvir, a viver.  Menino agora, não era feio, não era bonito, era vitorioso. Olhou-se no espelho, menino sumira, descobrira meia verdade. Fez uma festa, contou a todos, riu alto, rezou escondido.

Era bonito vê-lo assim, olhos transparentes, contando coisas recém-encontradas, como se todo o mundo estivesse recomeçando com ele. Tinha rosto sereno, mãos de espera. A vida era dele, sem desaponto, sem reserva, sem medalha alguma. Só vitória.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Reconstrução

De repente, das linhas simples, dos ângulos mais visíveis, as realidades básicas da vida começam a ser reconstruídas com esmerado apuro, com singular clareza.  Em volta, a luz é suave, amanhecente e ameno é o nosso encontro com o mundo.
Está redimida a longa e sofrida noite, algo indescritível que só a vivência explica. O roteiro dor-depois-alegria só se define e se faz compreensível para quem o percorre.
Os tempos de amargura e luta se acentuam sempre mais, no turbilhão e na intranquilidade, quanto mais próximo é o tempo da paz definitiva. São misteriosos os limites da paz.
Mas, quando a mensagem começa a brotar assim profunda, tudo mais se apequena e perde importância, junto à inesgotável fonte da luz, da harmonia, do encontro definitivo consigo próprio e com o infinito.
É tempo de acordar-se em festa porque as grandes flores estão desabrochando e as mais sutis melodias ensaiam escalas para a sinfonia total. Plenitude deve ser o nome da espera e redenção. Tudo, agora, caminha para o horizonte onde todas as portas se abrem e todos se encontram na mais conciliadora fraternidade.
Não nos enganemos mais, treinemos os passos, pois a caminhada será em ascensão e, em cada etapa um deslumbramento nos alcançará e responder-nos-ão nossas mais intimas indagações.
A Terra já é um lótus de pétalas quase abertas e um perfume novo anuncia as descobertas. De repente, todos os diálogos encontram um mesmo tema e os lábios jovens estão ávidos das mesmas palavras. A renovação é lenta, mas cheia de inconfundíveis sinais que a esperança protege e ilumina.
De repente, o vento passa muito manso murmurando canções, dizendo cores, pedindo forma e, por muito amá-lo, deixamos que se mostre metade presente, metade passado, caminhando sob a abóboda do tempo maduro e desperto. Tudo então se faz simples e claro e as imagens se repetem, apenas, para que todos entendam.
Neste momento até as pedras pedem a palavra, a beleza dos lírios convida a manhã, como se dela viesse nosso mais secreto encontro.  Já fomos informados que quando estivermos prontos, a luz se fará irresistível e nosso rumo percorrerá a vertical luminosa onde moram as estrelas e onde habita o amor.
Somos herdeiros deste instante e o doamos ao mundo, em comum oferenda para que renasçam flores sobre toda a Terra e se deem as mãos os irmãos conciliados.
Por um momento, o sol passa a ser tanto fogo como amor, e o mundo cresce consolado porque investigou a Luz.