segunda-feira, 1 de julho de 2019

Quero de volta o meu lugar


Não mais irei ao encontro da noite como única companheira, ou à terra do silêncio como refúgio às respostas que não vi. Dispenso a bagagem de longa caminhada.

Já não partirei. Quero de volta o meu lugar, minha rota, meus sapatos. Não chamarei a morte para repouso do meu ser, nem cobrirei o rosto para tirá-lo. Vivo ainda do mundo que palpita. Não quero a fuga ou o desterro. Resolvi tomar todas as armas e fixar o acampamento para qualquer resistência. Tentarei sair do sonho, do cerco dos fantasmas, para a realidade que sempre evoluirá em luz, mais luz. Vou contar as horas com curiosidade, descobrindo tudo que olhei sem ver ou que vi sem existir. Aceitando o medo, posso medir-lhe o tamanho e transpor os seus limites, porque acima dele sempre haverá paz.

Vou acender a noite para que ela não me intimide. Quero música e silêncio intercalados, convivendo como amigos.

Já não vou seguir. Quero a extensão da alma na amplidão da vida e ficarei acordada à espera de um canto ou um sorriso para entender o mundo diferente. Para descobrir ou redescobrir o que ele escreve em suas entrelinhas; as palavras que diz, as que sugere, as que esquece nos bancos das praças ou nos encontros de amigos. Vou ver o que ele liberta, o que concede, o que arrebata; saber como se luta nesse mundo e se sobrevive feliz.

Se queres, levo-te comigo. Vou indagar das confidências da noite sobre os lagos mansos, ou da voz das folhas habilmente manejadas pelo vento. Posso até quebrar as palavras para uma intimidade com as letras que não li, ainda.

Já não partirei no início do dia, quero conhecer o colorido da tarde e prolongar o curto calendário que me fora traçado. Quero de volta o meu lugar, minha rota, meus sapatos.

(Texto integrante do livro ROTA DE SONHOS, Ed.Manduruvá, BH/2019)
Obs. O Livro ROTA DE SONHOS encontra-se à venda, em horário comercial, na casa INTEGRIDADE (Adriana), Rua Sinval de Sá, 609, Cidade Jardim – Tel. 3335-5433. Também pelo e-mail da autora: celialaborne@yahoo.com.br

quinta-feira, 27 de junho de 2019

O Ser Interno


Aquele que já descobriu a importância do autoconhecimento e o busca, intensamente, é como o nadador que, inicialmente brinca à flor da água e depois começa a mergulhar cada vez mais profundamente. E, quanto mais desce, maior se faz a pressão.

Não se pode ir ao encontro da luz maior, pensando em facilidades de qualquer espécie. A porta é estreita, o caminho áspero, a cruz pesada. Mas não faltará ajuda e a luz atrairá mais e mais o que a busca.

É num mergulhar, cada vez mais profundo, que se vai descobrir insuspeitados tesouros. Muitas vezes se deslumbra e quer-se permanecer junto deles, mas se o fôlego ainda é curto deve-se voltar à superfície, para respirar. De vez em quando, vem-se à tona, mas sofre-se a lembrança do reino vislumbrado, tocado e deixado, e novamente volta-se à busca.

O impulso para evoluir é uma pressão constante em todos, e quando colaboramos com ela, ela nos incomoda menos e passa a nos oferecer gratificações insuspeitadas.

Quanto mais se mergulha no próprio interior, mais condições se tem de aprofundamento e de permanência junto às riquezas encontradas. A vida linear da superfície horizontal perde sua grande importância e sua dimensão limitada, para nos mostrar uma vertical sem limite.

Quem ouviu, por uma única vez, o canto suave da sereia interior estará enfeitiçado para sempre e destinado a chegar à luz mais cedo. Sua realidade mais plena centraliza-se na expansão da força interna que ele conhece, porque já a tocou e sabe que chegará sempre a ela, pelo caminho da purificação, da fraternidade e do sentido de unidade de tudo. Fora disso são vãs as tentativas de realização, paz ou felicidade.

Quem tem em si a música é forçoso que a palavra cante. Quem mergulhou na luz não pode deixar de espalhar fosforescências em seu caminho. Não por determinação própria, mas pelo testificar de sua vivência.

(Do livro Vida Integral. P.34, 1984, de Célia Laborne)

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Apelo ao Inventor

Já inventaram o trem, o avião, a matéria-plástica e a bomba-atômica. Até a coca-cola..., que de inventores o mundo anda cheio. Felizmente.
A imaginação humana é incansável e copiosa. Despontam descobridores entre homens e mulheres de ciência, entre mecânicos, químicos e artistas, figurinistas e físicos. Já se criou tanta coisa nova, boa ou má, que estatística alguma poderia enumerá-las.
Mas convoca-se hoje, um técnico moderno e muito aperfeiçoado, um inventor capaz de redescobrir. Sim!
--- Quem quer inventar agora um silêncio sólido e confortante? Igual àquele silêncio antigo e amplo que, aos poucos, vai se tornando lenda?
--- Quem pode devolver o sossego à cidade da máquina e do torvelinho? Ao solo do trator e ao espaço do avião? Já transpuseram a velocidade do som, mas quem o deterá?
De repente, a gente precisa muito do silêncio e não o encontra. Procura-se, indaga-se, mas tudo inútil. Grita-se por ele, faz-se um chamado, um convite, sempre em vão. Vai-se comprá-lo, ninguém o vende.
--- Que fizeram dele? Quem o levou?
Perdemos o carinho pelo silêncio e ele vinga-se furiosamente de todos os lados. Cada máquina moderna cobrou dele o seu preço.
Hoje, só o barulho anda solto, faz comício e ganha posto. Não o expulsam, pelo contrário, fizeram-no dono do mundo. Ele vem do martelo escandaloso, construindo um prédio, corre maluco acompanhando os automóveis e motocicletas. Grita nas esquinas, brinca com as crianças, invadindo céus e terra. Faz ponto na cidade, no vizinho, na nossa casa.  Entrou nas fábricas e nos autofalantes, é chefe das ruas e das praças. Não nos deixam refúgio algum.
Até na música ele vai fazendo suas incursões, às vezes perigosas, às vezes descaradas.
Suplantado, o silêncio retraiu-se. Procurou o interior, virou caboclo, passou de moda. Está agora escondido nas fazendas, encabulado, espezinhado, arredio.
Por isso é justo que se pergunte:
--- Quem quer inventar um silêncio forte e gigantesco, que resista a tudo?
Um silêncio, certamente atômico, que cale os ruídos, saiba repousar e não se envergonhe de aparecer numa cidade grande! Um silêncio provinciano, que possa ser nosso, ao menos num dia de trabalho exagerado ou numa noite teimosa de insônia?

(Do livro Luz sobre o Mar, p.45, 1967, de Célia Laborne)
 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Lançamento do meu livro - ROTA DE SONHOS

Agradecimentos

Prezados Amigos.


Agradeço aos jornalistas, aos amigos e parentes, e a todas as pessoas que enriqueceram a tarde de sábado último, no lançamento de meu livro Rota de Sonhos.

Aos que não puderam vir, agradeço pela atenção e compreendo a ausência.

Foi um evento memorável!

Um grande abraço a todos.

Célia Laborne

 




Autografando o livro










Com a sobrinha Claudia e família











Com o irmão Darcilo Tavares, esposa e filhos e demais parentes









Com as sobrinhas, filhas e neta da irmã Lygia e ao centro Regina Lucia Heilbuth











Com Angelo Oswaldo e Rogério Tavares
   

 


Com Martha Mousinho












Com Raquel Romano















Sobre o lançamento do livro, acesse os links abaixo:

https://www.facebook.com/1795351614075581/posts/2272820529662018/
https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10205447416382313&id=1757469004
https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=2141597562567502&id=100001518361142
https://youtu.be/4-vfrLSdnXA

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

De mãos dadas com a esperança


Seria fácil sentarmo-nos e, de mãos dadas, dizermos que o mundo é bom e o homem, aos poucos, se redime de tudo, até do medo de si próprio, de sua origem e de seu destino. Seria honesto falarmos de amor como se fôramos adolescentes e deste amor dependesse a realização de nossas vidas.

Porém, a realidade que pesa sobre nossos ombros é superior aos nossos esforços de sermos lucidamente iguais a todos aqueles que facilmente se sentam, e de mãos dadas, creem num mundo que ainda não foi descoberto em seu íntimo. Há momentos que os atrai e deslumbra e lhes acena em seu exterior, com todos os vínculos de natural beleza e provável realização externa.

Todas as flores que juntos plantamos são como germens de luta e conquista que deverão reconduzir-nos aos recantos mais profundos de nossos destinos e deixar-nos, talvez, isolados em nossa mansa união de companheiros em busca do Graal.

Pelas manhãs florescerão nossos sorrisos como cúmplices fiéis de nossos melhores esforços no caminho do sol. E, à tarde, vigiaremos as estrelas, cada vez mais assustados por sua imensa distância de nosso inabordável silêncio, ainda de mãos dadas. Neste encontro, sob a noite que se faz sempre nossa e sempre mais profunda, como se fora nosso destino, depositaremos nela muitas esperanças.


--------------------------//----------------------

Caros leitores.
Desejo a vocês, leitores desse blog, um FELIZ NATAL cheio de saúde e paz e um ANO NOVO com muita esperança para dias melhores.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Rodízio


- Que noite é essa?
A tarde morreu agoniada e fria, como medrosa de viver, e os sonhos me abandonaram.
- Quem quer essa noite para si?
Só ficaram estrelas arrepiadas num céu sem promessa. Vou buscar a lua ou o farol do porto.
As lembranças tristes não devem regressar e, para espantá-las, vou desenhar no céu de luto uma noite diferente.
A alegria riu de mim, mas certamente, não poderá fugir. Entretanto, o meu rosto está plenamente desamparado.
Porém, resolvi não chorar. Perdoem-me se estou desfeita, olhos tristes, voz apagada. Era dia de chorar e resolvi não o fazer. Resolvi assim, de caso pensado, como quem vai tomar um trem. Resolução inabalável, bagagem pronta. Decisão firme, quase atrevida, para não voltar atrás.
Vou antes conversar com todos e copiar o sorriso de alguém --- de quem o tiver mais franco --- vou ter talvez, a tua voz e, por um momento, dizer as palavras que li ontem. Se não bastar, irei no automóvel de janelas abertas encontrar-me com o vento, misturar-me nele para tirar esta expressão de angústia.
- Alguém quer o meu passeio?
Vou olhar as casas como se fossem todas novas e cada uma tivesse um segredo a revelar. Seguir pelas ruas silenciosas que não conheço e parar na praça onde a fonte luminosa escreve poesia.
Depois, quando minha face não mais assustar a criança de olhos milagrosos, vou contar para ela uma história fantástica, que os meninos sempre fazem verdadeira. Quando for contá-la, tenho a certeza de que terei o sorriso todo meu, e o brilho dos olhos já estará presente, as palavras também serão concretas. Poderei, então, ter ao colo as realidades todas, porque as lágrimas que não chorei estarão adormecidas, guardadas no aquecimento, como se fossem falsas.
No rodízio dos dias, hoje era o dia da tristeza. Mas preferi dizer às crianças que todos os dias lhes seriam festivos, se guardassem com carinho a alegria que nasceu com elas.
- Quem quer essa hora para si?

(Texto extraído do livro LUZ SOBRE O MAR/1967, p.29, de Célia Laborne)