domingo, 22 de setembro de 2013

Surpresa



Por vezes parece-me estar ressurgindo da neblina de um passado que já nem sei se realmente é totalmente meu, tão diferente se põe agora junto ao meu caminho. Nossa última descoberta é um mundo de surpresas. Tenho, por momentos a impressão de que nunca existimos isoladamente, sem qualquer elo, por mais tênue que seja, sem qualquer compreensão por mais sutil que nos pareça.
         Isso pode ser nova vida, até ser o começo da partida, mas sem dúvida, é uma união que não teme o tempo ou o espaço, sem definição, sem possibilidade de perda irreparável, ainda que nos ponha, por vezes, medrosos do real encantamento.
         Nada parece-nos bastante palpável ou positivamente estável, mas tudo é definitivamente possível nesse ressurgir de coincidências, de paralelos, de passos em uníssono. Tudo nos é agora comum como se fôramos, há muito, preparando esta estrada, quase nossa, que ainda não está pronta mas, já nos deslumbra.
         Tudo além deve ser Luz e, poderei provar-lhe um dia se, novamente nos descobrirmos, exatamente no mesmo momento, como acontece agora.

sábado, 14 de setembro de 2013

Roteiro




Não é possível que marchemos assim quase em uníssono com passos gêmeos numa estrada que não sabemos se é nossa ou até onde nos levará. Não há marcos de certezas nem setas de roteiros definidos, nada nos fala de direitos herdados ou conquistados. E todas as pesquisas são sempre experimentais, como se devêssemos arriscar tudo pagando o alto preço dos sonhos que nos assaltam.
Se na próxima hora nosso relógio marcar horas concretas talvez despertemos sem susto para uma realidade cômoda, mas por enquanto há nuvens sob nossos pés e nada nos pode parecer impossível.
Quando o silêncio marcar a palavra para a quebra definitiva de nosso transe tácito, saberemos se a quietude foi de proteção ou feita apenas para machucar.
E a beleza se afigura a cada hora como uma promessa mais certa, mais capaz de forma, gesto e realização. De nosso trabalho, e até de nosso ócio pode partir a primeira idéia que nos libertará como se fôramos predestinados à espera do sinal, da redenção tão próxima que assusta não só nossos sentidos, mas a própria integridade de nosso Ser.
Cada medo é a porta de uma claridade tão intensa que se vai abrir como corola lenta aos nossos olhos deslumbrados. De nosso assombro e nossa temeridade dependerá o passo mais avançado.
E tudo que ficou para trás perderá sentido como se nascêramos daquela experiência extraordinária.

domingo, 1 de setembro de 2013

Volta ao passado



Um místico som de cítara, comandando o ritmo interno, talvez o manso ondular do vento, sobre velha palmeira, fez aflorar no interior reminiscências de um longo viver.

         No relembrar saudoso, surgiram guirlandas de flores e guisos do templo; as longas vestes de caminhantes, cujos pés conheceram vales e montanhas, lagos e grutas consagradas, no seu buscar incessante.

         No sombrear da noite, figuras chegaram e se juntaram ao rio sagrado, como antenas eretas a pesquisar o céu. Por vezes, ecoaram sons de místicas palavras...

         Tudo parecia acordar velhas e perdidas memórias de um tempo raro. E, no leve acordar, impunha-se a necessidade, muito urgente, de refazer histórias para dar continuidade ao longo caminhar, de eras bem remotas. Crescia o dever de entrelaçar etapas, num fluir e refluir da consciência que desperta e se apaga, sucessivamente, até que a luz se imponha definitiva.

         O Portal do passado já não sabe como reter seus mistérios, como esconder o germe da primeira claridade latente. – Que desça a paz sobre os tropeços do caminho, que chegue logo o acordar definitivo, para surpreender as fantasias e simbolismos que compuseram o degrau primário. Que a palavra encontre sua correta função. Que possa gotejar sobre tudo e sobre todos, o crescente irradiar da verdade e da luz que se esforça, agora, para ampliar-se sobre o mundo.

         As Verdades, grandes como a própria vida, são simples, como a mente do mais simples dos homens. Por isso, às vezes se indaga: - De que reminiscência vem este reconhecimento místico? – De onde crescem as belezas, vindas da Luz e do mais profundo e pessoal sentir?

         São planos que se ligam para se comunicarem; é o humano desmaterializando-se. É como um revoar de asas brancas sobre resplandecente lótus, um cristalizar de pérolas sobre profundas águas. É Tua revelação que deslumbra os ofuscados olhos quando, de outras esferas, comandas o renascer do Espírito.

         - De que energia cósmica se reveste o Ser, à simples reminiscência dessa elevadíssima vibração evocada?

         É como um reconhecer antigo, um querer secular; como atingir cristalinos e inviolados lagos. É um aprofundar-se em regiões de luz, onde o Sol dissolveu seu constante iluminar. Carinhoso reencontro de almas na purificação do fogo vivo, aquietamento no silêncio espesso que vem depois da procela, não antes, não antes!

         - O magnífico despertar de onde parte? Esse clarim de festa insuspeitada, criação do som, da forma ou da cor? Já não há como fugir do enleio, como não dissolver-se no Infinito.
         Todas as palavras são curtas, incompletas e mudas para o material desdobramento. É a voz audível do Mestre, o velho reencontro, o pressentir da graça que retorna.

domingo, 4 de agosto de 2013

Libertação



É preciso, a cada instante, saber liberar-se: como flor que se abre, perfuma, embeleza e vai-se, como vento que acaricia e passa, como onda que se eleva e cai, para novamente elevar-se.
         É necessário renascer, a cada hora, para gozar a libertação em suas formas mais reais, livres da ilusão. No gesto mais singelo está a beleza do movimento.
         Aqui e agora é preciso abrir os olhos e tê-los sempre novos, para ver a Vida que se expressa diversificando; contemplá-la e encontrar seu ritmo.
         É preciso saber entoar o canto cósmico, em escalas sempre crescentes, em compassos sempre mais refinados, para atingirmos a música das estrelas e ter ouvidos de ouví-la.
         É no abrir-se, no renovar-se, no perfumar e expandir-se de cada momento, que se perpetua a eternidade consciente, que se capta a vibração própria e se percebe o alvorecer da Luz.
         É pois importante que se livre dos muros, obstáculos, das amarras e correntes da defesa mental, de sugestões impróprias, de escravidões antigas.
         É mudando padrões, mas respeitando a Lei do amor e os vínculos do sentido da unidade, que se chega à alegria espontânea, do Ser liberado. É usando a intuição que se conhece a integração maior do espaço coletivo.
         Na polaridade do mundo, tudo tem seu verso e reverso; prazer e dor, luz e sombra, calor e frio. Só além dessa dimensão é que está a Luz sem sombra, o som imanente, a percepção global. Só transcendendo a condição humana densa se rompe a dualidade do mundo fenomenal para atingir o superior.
         É preciso saber ser simples para estar aberto às construções e elevações da Lei que tudo abrange; é necessário ter flores sobre as mãos e música nos lábios.
         É preciso observar, a cada tempo, a hora do plantio ou da colheita e sorver a água viva que jorra do cântaro divino. É preciso, como o Cordeiro, saber abrir os selos, como o lótus, abrir e girar as pétalas já iluminadas.
         É necessário conhecer a Verdade para que ela promova a libertação pessoal e coletiva. O caminho é árduo, mas foi proposto a toda humanidade, como vitória final.