sábado, 22 de setembro de 2018

Iluminação



Vamos brincar de apagar a luz e plantar claridades na areia, como se a praia fosse o longo mistério prometido?
Vamos brincar de algas e de espumas, de maré e de veleiros, onde cada mastro é um porto de refúgio? Vamos entrar no mundo do Faz-de-conta dos que exploraram tudo em volta, aquém e além do céu e resumiram-se na primeira simplicidade do despertar de um novo tempo.
Vamos pretender que além de todos os desenganos, renasça o intacto mundo das libertações esboçadas em todos os caminhos e prontas a florirem, sempre à custa do trabalho e da pesquisa. Vamos, talvez, confiar nas palavras emprestadas que podem discorrer mais rápidas e justas do que as mais ajustadas peças de combate e defesa que ousamos possuir.
E por que não começar logo as experiências, se o simples fato de começar desata o cordão da longa e fantástica hora que nos iguala, em mobilidade, aos pássaros e às ideias em evolução?
Vamos deixar que através de nós fluam todas as forças que, de cadeia em cadeia, comandam o universo, estabelecendo a harmonia plena.
Vamos, por um momento, servir ao elo das energias que nasceram para se expressar, porém tantas vezes as perdemos em nosso íntimo por limitações internas.
Vamos brincar de acender luzes e plantar flores na amplidão, com tal coragem, que elas possam brotar por força de nosso insistente comando fortalecido pela constante presença da luz divina.
Vamos brincar de sol e de claridades raras - que nem sempre sabemos absorvê-las - pois é plena primavera.

domingo, 26 de agosto de 2018

O som que nos revela


Todo som é vibração e toda vibração nos atinge no corpo e na alma. É um mistério a ser desvendado. A fala humana é um poderoso meio de comunicação que tem sido usado, nem sempre adequadamente. Deveríamos produz sempre vibrações de harmonia, de coragem, de corrente positiva. A fala humana é o termômetro de nosso estado interior. O equilíbrio, o dinamismo, a concentração, o medo, a tristeza e o desânimo são passados, através de nossa fala, para aqueles que nos ouvem.

Um mestre de yoga diz que jamais se viu um verdadeiro yogue fanhoso, rouco etc. Pelo contrário, ele tem a voz clara, harmoniosa, aveludada; nunca grita ou tenta suplantar a voz do interlocutor.

Observando o nosso modo de falar, ou daqueles que nos rodeiam, apreendemos o estado interior de cada um; percebemos o tipo de energia que circula nas pessoas.

Simplesmente observando a voz, pode-se saber muito sobre a pessoa; pelas palavras mais usadas, pela modulação da voz, pelo ritmo da fala, pelos gestos que acompanham as palavras.

Também a forma de rir é muito reveladora, é um espelho do mundo interno naquele momento; a altura, o equilíbrio ou o exagero, tudo nos mostra um estado interno.

Até mesmo ao telefone pode-se observar o estado interior de quem nos fala e pode-se também ser atingido pela corrente de energia que nos é transmitida. Há vozes deprimente, lamurientas e há vozes alegres, vivazes, estimulantes ou suaves e ternas. Há vozes que nos cortam a palavra, mesmo quando nos perguntam algo, ou pedem uma informação, revelando a ansiedade da pessoa. Há vozes lentas, suaves, compassadas e carinhosas, e outras, apressadas, prolongadas, nervosas.

Quem evolui um pouco, muda sempre a sua maneira de falar, seu tom e seu ritmo, seu riso e seus gestos, pois somos um todo, onde as correntes cósmicas jorram como sopros de vida. Somos os instrumentos que se manifestam afinados ou desafinados, falhos ou perfeitos, melodiosos ou irados.

Educar a voz, selecionar as palavras, escolher os temas da conversa, preferir o correto, o elevado, o reconfortante, é prova de um caminho evolutivo autêntico e ativo. Pois, a beleza, o ritmo e a harmonia fazem parte das leis da natureza, e tudo que foge a elas agride o ambiente e nos agride em dobro.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Um instante

Pena é que se tenha findado tão cedo este reencontro, pena que tudo deva, realmente, ser assim. Mas se entre nós o abismo crescer  mais do que nossa coragem, ficará sempre, conosco, a marca profunda deste período como se houvéramos sido os mais unidos irmãos, os mais ternos entre os amantes.

Se algum dia passar este momento que nos inspirou mutuamente e nos movimentou sincronizadamente, como ponteiros definidos de um mesmo relógio, ficará, para sempre, o reflexo de tudo que somos agora, em forma, em valor, em criação, talvez como escapamento de válvulas que se rompem para a luz. Depois pode haver o tédio ou o abismo e de novo o compasso uníssono ou alternado, porém, nunca será anulada esta passagem que agora transpomos juntos como coisa particularíssima, como passageiros de uma mesma nave, como participantes do mesmo momento de crescimento, de luta, talvez de harmonia. Só por isso, já lhe sou grata.  

Agora é tempo da colheita e é como se quase todos os frutos nos tivessem sido revelados ao mesmo tempo, como se esta hora fosse o centro vital de nossos calendários. Dela, sabemos, dependerá o futuro que nos parece brilhante e tão difícil, paradoxalmente atraente e perigoso. Depois, talvez, regressaremos então aos caminhos mais individuais como se nos fora mostrada outra estrada menos comum ao nosso mundo deste instante.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

ROTEIRO DE VIDA


Gratidão podia ser a palavra de hoje, porque, agora o tempo novo da descoberta se amplia. Aos poucos, a comunicação vai sendo estabelecida e todo diálogo é possível. E isso é bom, pois as sementes que estamos plantando não são nossas, mas nos vão sendo dadas à medida das necessidades comuns de nossa jornada.
É tempo de temperar e ensaiar os passos, pois o caminho é longo, o tempo curto e não nos é permitido parar, senão para rápido repouso.
As transformações marcam o mundo com passagens sucessivas, cada vez mais móveis e cada um deve estar a postos, quando a hora soar. A luz se aproxima a cada dia e exige mais participação, mais consciência e responsabilidade.
Somos convidados de uma festa que se está instalando e que tudo agita e sacode para que se implantem as estruturas sólidas. E, nessa hora, apenas o amor sem limites e o desprendimento total podem amenizar os tropeços desse tempo de desencontro, onde o desabrochar humano revoluciona o cosmo. Todos os processos já foram acelerados e, apenas os firmemente fixados em seus postos ou os amorosamente livres de apego, podem suportar, sem medo, as horas violentas.
Por isso insistimos, mais objetivamente, na importância da descoberta do grande silêncio, do amor maior, do carinho profundo ou do grande som universal da criação, pois eles podem amenizar esse tempo.
Por tudo isso, também, nós te convidamos à busca verdadeira, te convidamos para, ao nosso lado, repartir as dádivas que foram acumuladas à nossa porta, como respostas fartas às nossas indagações pequenas.
Chega-te, tu também, por entre luzes e flores, por entre cores e formas que se pressentem na manhã de hoje. Aprende tua lição de luz nessa festa que se prepara, onde o germe da alegria tem raízes de eternidade. Aprende a entregar à terra o que é da terra e a esperar do infinito o que o infinito prometeu ao homem.
As lições são várias, os caminhos múltiplos para que os caminhantes tenham, todos, sua hora e vez. O importante, apenas, é não retardar tua própria festa, tua  particular  chegada.
Se tuas mãos estão abertas, recebe esta oferta de hoje, mas lembra-te que tudo o que vai nos sendo dado deve ser repartido e compartilhado. Agora, a beleza se forma para teu carinho mais interior. Escolhe, pois tua guirlanda para o início da festa.
Na porta aberta, o primeiro raio de luz vai inscrever teu nome, e estarás comprometido com todas as flores que desabrocham sobre a terra.
Faz tua escolha!

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Rosas Silvestres



Não te aborreças e toma em tuas mãos, como passageiro, este transbordar de rosas silvestres, em plena floração, projetando perfume e espinho. Este é o caminho que me foi dado e, se cruzar com o teu, não te assustes, posso ser apenas a viajante.
Vim marcada, inquieta com tantas pétalas de veludo e cor, como um vegetal; mais emoção que planta, mais harmonia que som pleiteando o sol.
Levantar, cada vez mais, as palavras sob o sopro do vento e em direção à luz é como ter brasas sob os pés e pira sob o corpo. Só a promessa de um céu puro, além do abismo, nos anima e, como estamos lado a lado, conheço-te as lutas, as marcas de fogo sobre os dedos. A cada novo caminho, nosso transporte reagirá como flor cujo destino é evoluir e crescer para dominar todas as sombras.
Mas, viemos tão mansamente, tão inesperadamente que cada palavra nossa, igual, é uma surpresa; cada reconhecimento é um reencontro de passado e de vida. De todas as formas que sabemos armar e que nos unem mais, apesar de todas as fugas, a mais sutil é a que se esboça sob o  quase-sorrir, o quase-falar, o super-sentir de planta que vai pleitear a eternidade.
A dádiva que cada espera, que não buscamos, vem ao nosso encontro, como coisa própria e estabelecida, conquistada através de séculos, para a compreensão final.
A abstração do que fomos ou do que seremos são românticos pontos de contato na aridez de nossas vidas; como se só assim pudéssemos prosseguir.
Apesar de todos os subterfúgios e a constante vigilância que nos impusemos para que nada fosse revelado, nada fosse muito comum, o encontro foi sempre uma realidade que tanto nos assustava quanto hoje nos engrandece e explode a cada hora.
 
(Extraído do livro LUZ SOBRE O MAR, editado pela Imprensa Oficial, BH, 1967